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AMAZÔNIA, E EU COM ISSO?

Entender o avanço da devastação ambiental na Amazônia exige fôlego.

Nesta reportagem especial, mostramos em detalhes as mudanças que o bioma passou ao longo dos 15 anos de cobertura do G1, que faz aniversário neste mês, e também em décadas anteriores. O que perdemos da floresta? O que já nos afeta? Quem são os culpados? O que deve ser notícia nos próximos 15 anos?

O itinerário em busca de respostas começa na terra indígena Cachoeira Seca, a mais desmatada do Brasil. Ela fica no Pará, estado campeão em devastação.

Sua história resume a maioria dos problemas da Amazônia.

Vítima de sua própria riqueza, o território indígena perdeu mais de 28 mil campos de futebol de vegetação apenas entre 2017 e 2020.

O desmatamento é evidente em imagens e números. Cachoeira Seca vem sendo desmatada desde 2008 e o ritmo aumentou nos últimos anos:

Mas o ataque a Cachoeira Seca está longe de ser uma realidade isolada. Todo o bioma enfrenta recordes de desmatamento e de queimadas.

Imagem aérea da BR-163, no Pará. De um lado, uma plantação de soja. Do outro, a Floresta Nacional do Tapajós.

Nem sempre foi assim. Houve momentos recentes em que a taxa de desmatamento na Amazônia chegou a cair.

Mas voltou a crescer de forma sustentada depois de dois saltos: em 2016 e 2018.

A devastação não significa apenas a perda de árvores e a extinção de animais. Ela aumenta a incidência de eventos extremos do clima, como secas, ondas de calor e chuvas atípicas.

Tudo isso por causa do aumento na emissão dos gases do efeito estufa que mudam o clima em todo o globo.

Alvo de queimadas e desmate, a Amazônia emitiu mais CO₂ do que absorveu na última década.

E até mesmo as árvores que ficam de pé sofrem e deixam de contribuir para regular o clima. Com o aumento da temperatura, as plantas diminuem a fotossíntese, deixando de absorver o CO₂ e emitir vapor de água para o ambiente.

Os cientistas apontam que uma única árvore grande, como as encontradas na floresta com copas de 20 metros de diâmetro, pode bombear do solo mil litros de água por dia.

Os rios voadores levam umidade para cidades da América do Sul. São fluxos aéreos de água na forma de vapor que vêm do Oceano Atlântico e ganham força com a umidade da floresta.

Os rios voadores conseguem transportar mais água que o próprio Rio Amazonas.

A devastação tem impacto na seca no Sul e Sudeste porque os rios voadores são fundamentais para o ciclo de águas que abastece o Brasil.

Em Rondônia, outro estado já muito afetado pelo desmatamento, também são visíveis os rastros da devastação.

Desmatamento em Rondônia

As unidades de conservação e as terras indígenas vistas de cima mostram que são uma ilha de proteção da floresta. Basta dar uma olhada ao redor da terra indígena Karipuna.

O desmate da região vira comércio de madeira, pasto, plantação ou até área abandonada.

A terra que antes era da União acaba vendida por um preço especulado pelo invasor. No final, o objetivo de quem compra, na maioria das vezes, é a agropecuária.

O gado é um dos primeiros a ocupar essas áreas. E boi é sinônimo de metano, gás mais prejudicial do que o expelido pelos automóveis.

Liderança Batiti Karipuna mostra desmate dentro de terra indígena em Rondônia.

Para entender o impacto: todo o setor de transporte de cargas e de passageiros do país emitiu em 2019 metade dos gases de efeito estufa que o gado liberou no país naquele ano.

Se por um lado a agropecuária também é parte do problema, por outro ela também sofre as consequências: único setor que superou a pandemia e cresce atendendo a carência fundamental por alimentos, perde produtividade. A estimativa é que até 35% da variação do preço de alimentos já tenha relação com eventos climáticos extremos.

A grilagem que abre caminho para o gado ou para venda de madeira em toda a Amazônia também é praticada em Cachoeira Seca, no Pará.

Em 2015, operação do Ibama apreendeu uma quadrilha que extraía as madeiras mais valiosas. Entre elas, o ipê.

A venda ilegal de madeira é uma das formas de crime que destroem a Amazônia.

Na mais recente operação da PF que apreendeu no fim de 2019 cerca de 65 mil árvores derrubadas no Pará, o valor do material foi estimado em R$ 130 milhões. Algo como, em média, R$ 2 mil por árvore arrancada.

Outro crime ambiental ligada ao desmatamento são os incêndios na floresta.

Apesar de os alertas de queimadas voltarem a bater recordes desde 2019, o fogo não é um fenômeno natural na Amazônia.

No Pará, estão as cidades que mais queimaram na Amazônia nos últimos 15 anos: São Félix do Xingu, com cerca de 70 mil focos, e Altamira, com mais de 42,5 mil.

Não por acaso, o Pará foi palco do Dia do Fogo, em 10 de agosto de 2019.

Por dois dias seguidos, fazendeiros e produtores rurais atearam fogo em florestas e áreas de preservação.

Vídeos mostram fazendeiros colocando fogo na floresta em 10 de agosto de 2019.

O fogo foi tão intenso que a fumaça proveniente das queimadas pôde ser vista do espaço.

A fuligem de incêndios na região foi carregada até o Sudeste. Houve registro de névoa densa no céu de São Paulo e de chuva preta.

São Paulo ‘virou noite’ no meio da tarde em agosto de 2019 após fumaça descer da Amazônia

Altamira foi uma das áreas queimadas no Dia do Fogo. Mas por que ela foi alvo dos criminosos?

Sua localização nos ajuda a entender: mais de 70% do território da TI Cachoeira Seca tem incidência no município. Tem muita área ainda para destruir e queimar.

A TI Cachoeira Seca registrou 218 focos de incêndio em 2019, o quarto maior em 15 anos.

Em vez de os incêndios criminosos do Dia do Fogo servirem de alerta, a situação piorou na TI em 2020.

Além das queimadas e do desmate, Cachoeira Seca sofre há décadas com a invasão de terras e a expansão da infraestrutura na Amazônia.

Estima-se que 95% do desmatamento em geral da Amazônia ocorre dentro de um raio de 5,5 quilômetros de estradas ou em um raio de 1 quilômetro de um rio.

As rodovias Belém-Brasília (BR-010) e Cuiabá-Porto Velho (BR-364), por exemplo, integram os 500 km² do “arco do desmatamento”. Há ainda os danos sociais. A construção da rodovia Transamazônica (BR-230), por exemplo, dividiu o povo Arara em três aldeias. Uma delas fica em Cachoeira Seca.

Há ainda os danos sociais. A construção da rodovia Transamazônica (BR-230), por exemplo, dividiu o povo Arara em três aldeias. Uma delas fica em Cachoeira Seca.

Estradas começam a entrar na Terra Indígena Cachoeira Seca.

Um documento antigo alertava para o estrago, mas, mesmo assim, a obra foi realizada.

Aliás, a terra indigena foi homologada somente em 2016 como forma de compensação da obra de Belo Monte. Atualmente, Cachoeira Seca está localizada na zona de influência da hidrelétrica.

Não foram somente os povos indígenas que Belo Monte afetou. A obra desabrigou 300 famílias ribeirinhas, mudou o fluxo natural das águas do rio Xingu e reduziu em até 80% a vazão da Volta Grande do Xingu, afetando a vida dos povos tradicionais que vivem na região e se abastecem da água do rio.

Mas Belo Monte é só a primeira barragem do Complexo Hidrelétrico do Xingu. Outras delas estão previstas e algumas já estão sendo construídas, o que deve ampliar o impacto na floresta, nos povos e na hidrografia da Amazônia.

Ao todo, a Bacia Amazônica tem 452 usinas projetadas ou construídas.

Em Rondônia, há as hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio.

A área alagada pelos reservatórios excedeu 64,5% do previsto no projeto. Sete unidades de conservação tiveram seus limites alterados. Milhares de famílias foram desabrigadas, estradas foram interditadas, comunidades ficaram isoladas.

O Rio Madeira subiu quase 20 metros desde a construção das hidrelétricas, desabrigando mais de 12,5 mil pessoas e afetando de forma indireta quase todo o estado de Rondônia com o aumento de doenças que vão de diarreias a malária.

E não são somente as barragens que ameaçam as águas da Amazônia. Há também o garimpo e a mineração, que contaminam as águas, os peixes e as pessoas, e deixam crateras no leito dos rios.

Garimpo ilegal na região do Tapajós, no Pará

Na região do médio Rio Tapajós, um estudo mostrou que todo o povo munduruku, assim como todas as espécies de peixes que vivem no rio, estão contaminados por mercúrio, metal pesado usado no garimpo.

A intoxicação pelo mercúrio afeta rins, fígado e sistema nervoso central. Nos casos mais graves, causa sequelas permanentes e morte.

Antes fonte de vida aos povos tradicionais, o garimpo transformou a Bacia do Tapajós em fonte de ameaça.

Em geral, entidades estimam que para cada 1 kg de ouro produzido, 1,3 kg de mercúrio é despejado no meio ambiente.

No caso do Rio Tapajós, estima-se que o garimpo na região causou a liberação anual de cerca de 12 toneladas de mercúrio para o ar, subsolo e rios. Mas os efeitos vão além da contaminação de rios e populações.

Desde agosto de 2015, quando o Inpe começou a medição, a mineração desmatou o equivalente a mais de 50,8 mil campos de futebol da floresta.

A liberação do garimpo em terras indígenas é uma das ambições do presidente Jair Bolsonaro. A atual gestão é criticada por políticas anti-ambientais, que ficaram marcadas pela frase do ex-ministro Ricardo Salles de que era preciso aproveitar a pandemia de Covid e “passar a boiada” flexibilizando regras.

Os prejuízos ambientais também são econômicos: dados do Ministério Público Federal revelam que o garimpo gerou um prejuízo socioambiental de R$ 9,8 bilhões para a Amazônia entre 2019 e 2020.

Yanomamis fazem protesto contra garimpo dentro de suas terras

A mineração ilegal e o garimpo também levam invasores para áreas protegidas.

Os Yanomamis sofrem constantemente com as ameaças relacionadas à extração de ouro.

Em Altamira, região da TI Cachoeira Seca, já teve até pista de pouso clandestina encontrada neste ano.

Hoje o branco chega até de avião trazendo ameaças, repetindo o roteiro do passado, quando o contato levou doenças que dizimaram tribos. Agora as mais recentes ameaça são a Covid e as fake news que atrasam a vacinação entre os indígenas. Mais 1,1 mil indígenas morreram pela doença.

O cacique Mobu odo Arara, de Cachoeira Seca, conseguiu sobreviver. O mesmo não aconteceu com outra liderança: o cacique José Carlos Ferreira Arara, na aldeia de Volta Grande, morreu pela doença.

Para além do coronavírus, do CO2 e da devastação que avança, quais as perspectivas para o futuro da Amazônia e seu impacto no Brasil?

Se o desmatamento persistir, a Amazônia continuará ajudando a piorar (e não a reverter) a crise climática. E o bioma deve ter, segundo o IPCC, um painel de especialistas da ONU:

• Aumento no número de dias secos e na frequência das secas
• Mudança no regime das monções no sul da Amazônia brasileira e em parte do Centro-Oeste
• Crescimento de secas agrícolas e ecológicas no sul da Amazônia brasileira e em parte do Centro-Oeste

Especialistas são unânimes ao apontar que o caminho para diminuir o impacto da mudança climática na Amazônia é o desmatamento zero e recomposição de áreas degradadas. Esse é o desafio que começa hoje e não pode esperar mais 15 anos de devastação.

Fonte: https://especiais.g1.globo.com/g1-15-anos/2021/amazonia-meio-ambiente-devastacao/?_ga=2.249853441.66919016.1631878953-679394592.1631878951

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